Manifestações negras ajudaram a construir a identidade musical brasileira. Mas por quê pouco se fala da contribuição afro na formação da música no Brasil? Essa é uma questão que deve ser tratada de forma séria e urgente.
Por Edilene Nascimento | Mundo Kôrò
A música brasileira é reconhecida mundialmente por sua diversidade, criatividade e capacidade de reunir diferentes tradições culturais. Mas, por trás dessa riqueza sonora, existe uma história que nem sempre é contada com a mesma dimensão de sua importância: a participação dos povos africanos e de seus descendentes na construção da musicalidade brasileira.
A música brasileira não nasceu de um encontro cultural equilibrado. Ela foi construída em uma sociedade profundamente marcada pela escravidão, pela violência, pela desigualdade e pelo racismo. Ao mesmo tempo, foi nesse contexto que africanos escravizados e seus descendentes encontraram maneiras de preservar memórias, reconstruir vínculos e afirmar sua humanidade.
A palavra influência pode transmitir a ideia de uma contribuição pontual, quase como um elemento acrescentado posteriormente a uma cultura que já estaria pronta. A realidade é muito mais profunda.
A presença africana participou ativamente da formação de diversas manifestações culturais que hoje reconhecemos como brasileiras.
Milhões de africanos foram trazidos compulsoriamente para o território brasileiro durante o período escravista. Eram pessoas pertencentes a diferentes povos e sociedades, com línguas, cosmologias, conhecimentos, formas de organização social e tradições próprias.
Não chegaram ao Brasil sem cultura.
Chegaram trazendo culturas.
O processo de escravização tentou romper vínculos, apagar identidades e transformar pessoas em mercadorias. Entretanto, apesar da violência, referências culturais foram preservadas, recriadas e ressignificadas em diferentes territórios.
A música ocupou um papel fundamental nesse processo.

O ritmo, a dança, o canto, a oralidade e a percussão funcionaram como formas de transmissão de memória e construção de pertencimento. Em comunidades, festas, irmandades, terreiros, quintais, ruas e rodas, diferentes práticas culturais foram mantidas e transformadas ao longo das gerações.
Foi nesse processo que tradições africanas dialogaram com elementos indígenas, europeus e de outros grupos, produzindo manifestações culturais próprias do território brasileiro.
Por isso, compreender a música brasileira exige olhar para além dos gêneros musicais que chegaram aos grandes palcos, às gravadoras e, posteriormente, às plataformas digitais.
É preciso olhar para os territórios onde essa música foi construída.
A musicalidade preta passou e ainda passa, por inúmeras manifestações populares, a presença africana não está apenas em determinados ritmos ou instrumentos. Ela atravessa formas de cantar, dançar, celebrar, transmitir conhecimentos e construir comunidades.
O som dos tambores não é só marcante, ele carrega a memória viva da resistência de um povo que lutou bravamente por liberdade e dignidade. E buscar conhecer a contribuição africana e de seus descendentes na formação de muitos ritmos musicais no Brasil é fazer parte da luta contra o apagamento histórico da cultura e arte de um povo que muito contribuiu na música que conhecemos hoje.
Falar em “influência africana” na música brasileira é importante, mas pode ser insuficiente, é preciso se mover de forma organizada para que a contribuição afro descendente seja de fato reconhecida plenamente na história da musicalidade brasileira.

